terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Comentando uma recente disputa do Instituto do Bom Pastor



O IBP, mediante suas reflexões teológicas,  conseguiu ampliar sua “crítica construtiva” ao Concílio Vaticano II acusando um dos padres da FSSPX de cisma. Vale salientar, que é bom que os leitores leiam o texto integralmente aqui, reproduzido pelo Frates in Unum, para que se possa compreender esta minha objeção. O resto é só questão de honestidade intelectual, coisa que nem todo o católico conhecedor da crise quer fazer esforço para adquiri-la.

“ O artigo do abbé Mérel é uma magistral declaração de cisma, ainda que, do ponto de vista do autor, o pecado de cisma (ou de heresia, ou ambos, o texto não o especifica) parece ser mais imputável ao Papa e àqueles que se Lhe submetem”. (tradução do blogue São Pio V )

Será que isso é novo? Tenho o pressentimento de que já vi esse filme.  As reflexões dão o tom gravemente preocupante quando se assegura que a FSSPX é contraditória enquanto aconselha aos seus fiéis a não assistirem missas do Motu Proprio. Tal análise inicia-se  a partir de uma declaração do Padre Régis de Cacqueray :

“Para ser completo sobre o assunto, é necessário citar essas outras missas de São Pio V celebradas sob os indultos sucessivos, depois, finalmente, sob o Motu Proprio. É verdade que desaconselhamos a vocês a freqüentação. Postos sob a dependência e sob a supervisão dos Bispos, os padres que a dizem, mesmo supondo que tenham consciência da gravidade dos erros propagados na Igreja há quarenta anos, não se arriscam a se opor a esses erros firmemente. Mais comumente exprimem sua escolha de celebrar a missa de São Pio V pelo motivo decepcionante de que esta se ajusta melhor à sua sensibilidade ou à de vários de seus fiéis.

Claro, queremos encorajar esses padres no seu itinerário. Mas, até mesmo para os ajudar, não queremos que vocês se coloquem em circunstâncias perigosas em que, indo assistir a essas missas, arrisquem-se a si mesmos ou arrisquem seus filhos nessa corrosão às vezes insidiosa que provém das imprecisões na expressão da Fé, da licença persistente que se autoriza na liturgia e sobretudo, de silêncios e cumplicidades em presença das raízes do mal que existem no interior da Igreja. Sabemos com que facilidade se operam os deslizes doutrinais e como se introduzem, imperceptivelmente, as dúvidas e as contestações”. (Tradução retirada do comentário do Sr. Leonardo no Frates in Unum)

Examinados atentamente o texto e o contexto, agora, pergunto: cadê a contradição com o que prega a FSSPX? Onde está a política dúbia?

Conhecendo a realidade da FSSPX, percebemos que o tom grave que denuncia contradições, inclusive a acusação de cisma, logo cai por terra. Sinceramente, eu até esperava uma reação rápida por parte da FSSPX, tipo uma nota de repúdio de qualquer um dos sites filiados. Pelo contrário, a reação veio confusa em alguns sites simpatizantes. O IBP, em vez de ser preciso nas suas argumentações, provoca discórdias delirantes entre os católicos.   

Conhecendo a realidade do IBP, nada mais coerente com o que eles acreditam desde do início de sua fundação.  Eu daria razão ao IBP se provassem o que dizem, mas não, infelizmente eles não fazem isso, o que vejo é só uma linguagem estruturalmente bonita.


Vejamos apenas um trecho breve do que disse, certo autor do IBP que não assina as reflexões, traduzido pelo blogue São Pio V, porém retirado do Frates in Unum:  

“Por outro lado, o pensamento de um outro teólogo da Fraternidade, o abbé Mérel (já professor em Ecône, e com cargos no distrito da França) é mais profundo especulativamente, e mais estruturado teologicamente. Num artigo [2] que ficou célebre – foi publicado em muitas ocasiões em revistas locais da Fraternidade a partir de 2008 -, e que possivelmente tenha inspirado as declarações mais vagas do seu superior, exprime-se ele em termos teológicos acessíveis, mas estritamente bem construídos.” (tradução do blogue São Pio V)

Eu perguntaria aos reverendos padres do IBP, ou ao autor do artigo, com todo respeito e com plena consciência de minha ignorância teológica, se é possível uma “ argumentação bem estruturada”, “teológica”, “profunda”, “acessível”,   “especulativa”  entrasse  em contradição, e até mesmo, causaria um cisma? Como assim contradição e cisma? Como um argumento bem estruturado teologicamente pode ser bom e ao mesmo tempo ruim?  Se os reverendos padres (ou o autor do artigo) querem dizer que o argumento é regular, ou seja, nem bom e ruim, porque então mentir dizendo categoricamente que o padre em questão usa termos teológicos acessíveis,  mas (sic)estritamente (sic) bem construídos? Não seja  a linguagem cristã “sim sim e não não” e as demais provém do maligno? A “contradição” de linguagem, pelo que parece,  não é só da FSSPX.   

“Para sermos completos, digamos que não é completamente falso o que disse o abbé de Cacqueray, que às vezes pode ser desaconselhado assistir a uma Missa. Poderia ser o caso, ainda em missas tradicionais, quando o significado teológico da Missa de sempre é gravemente deformado ou até reduzido – como, infelizmente, às vezes acontece – a um puro fenômeno teatral, que acaba por juntar incenso, sedas preciosas e homilias heterodoxas. Mas é insustentável que o princípio deva aplicar-se universalmente a todas as Missas dos que estão canonicamente submetidos ao Papa: uma tal ruptura da communicatio in sacris, com todos aqueles que subscrevem as posições da Fraternidade, não é nada mais que a aplicação prática de uma teoria cismática”. (tradução do blogue São Pio V)

Não é “completamente falso”? Como uma teoria contraditória, e praticamente cismática, possa ser meia verdade? Existe um meio de encontrar exceções em contradições? Ou pior, pode haver exceção para  se salvar um cisma concreto?

Ah, mas o IBP rejeita o principio da universalidade aplicadas nas missas motu proprianas (ou ecclesia deianas). Ok, como já foi frisado, o Padre de Cacqueray aconselha (isto é, não impõe) aos seus fiéis a não assistir missas do Motu Proprio, e o Padre Merel, por sua vez diz, certamente também aos fieis da FSSPX, em grosso modo, que não é necessário assisti-las. Dito isso, como faço para encontrar contradições e cismas nas declarações da FSSPX? Será que o Padre Merel está declarado cismático porque usou por diversas vezes a expressão “rallié”?  

Eu espero que o IBP não fique somente em disputas teológicas contra a FSSPX, e deixo claro, devido à gravidade da situação na Igreja, eu não sigo o conselho do Padre de Cacqueray , apesar de ser bom. Se  eu o seguisse à risca,  ficaria sem a minha missa dominical. Conselho é conselho,  há  que se fazer ponderações sobre eles, como a própria FSSPX permite aos seus fiéis que se  faça..  Eu, por exemplo, não perderia a chance de assistir uma missa celebrada por um padre do IBP, se viesse  algum na minha cidade. Honestidade nunca é demais, a não ser que a cegueira consentida já tenha sido completamente infiltrada na razão de certos padres.